31 dezembro 2010

Hipnose: sem dor e sem anestesia

FOTO: seringa e ampola de anestesia | Fonte: Google Imagens

 

Conviver com o medo dos pacientes é quase uma rotina na vida dos dentistas. Mas essa realidade, que atrapalha e muitas vezes até impede os tratamentos, pode melhorar. Depois de conquistar a maioria dos profissionais da Europa e dos Estados Unidos, a hipnose começa a surgir no Brasil como uma excelente ferramenta de trabalho para o odontologista.

Muito longe do ocultismo ou das ciências místicas, a hipnose é um procedimento cientificamente fundamentado. Ao longo da história, tem sido largamente utilizada como técnica curativa e foi ainda a primeira técnica de psicoterapia. No caso dos dentistas, a hipnose pode, em muitos casos, substituir as anestesias e diminuir os sangramentos e a salivação, facilitando muito o tratamento.

No Brasil, a utilização da hipnose é autorizada aos cirurgiões-dentistas no artigo 6° da Lei nº 5.081, de 24/08/66, que regula o exercício da Odontologia. No entanto, é necessário que os profissionais sejam devidamente habilitados. Para isso, começam a surgir cursos de hipnose direcionados para os profissionais da Odontologia.

O Cirurgião Dentista Gelson Crespo da Silva descobriu a hipnose há 15 anos. Desde que começou a exercer a profissão, o medo do paciente o incomodava bastante. Procurando uma forma mais humana de tratar seus pacientes, acabou fazendo um curso de hipnose na ABO e se tornando um pesquisador do assunto. “Antes de utilizar a hipnose com meus pacientes, eu absorvia o sofrimento deles e ficava muito estressado. Hoje, trabalho 10, 12 horas e termino meu dia sentindo-me muito bem”, conta Gelson, que é ainda psicanalista clínico e ministra cursos de hipnose em vários estados do Brasil.

 

Recursos inconscientes

A hipnose é um estado especial de consciência, intermediário entre o sono e a vigília. Nesse estado, o lado direito do cérebro, que trabalha a imaginação, é ativado, enquanto o lado esquerdo, mais racional, se relaxa. Na hipnose, a mente consciente permite a indução, deixando que a mente inconsciente se manifeste.

É através da voz monótona e repetitiva do dentista que o paciente alcança o estado hipnótico. Um ambiente calmo e tranquilo também ajuda. Através de técnicas específicas, as ondas cerebrais do paciente passam do estágio beta (da vigília) e atingem o estágio alfa da hipnose, quando o hipnoterapeuta pode sugestionar o paciente. Consegue, dessa forma, sugerir à mente hipnotizada que determinada parte do corpo está anestesiada.

Fazer uma anamnese nos pacientes antes de recorrer à hipnose é sempre importante, segundo Gelson. Aqueles com história psicótica, que têm a realidade mal estabelecida, não devem ser hipnotizados. Crianças abaixo de 4 anos e pessoas com mais idade, especialmente aquelas que não têm muita atividade intelectual, também constituem um público para o qual a hipnose é contraindicada.

Embora tenham medo do dentista, muitos pacientes também sentem medo da hipnose. Por isso, em alguns casos, o dentista precisará desmitificá-la. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, ninguém faz sob hipnose nada que não faria se não estivesse hipnotizado. Além disso, por questões éticas, nenhum profissional pode utilizar a hipnose sem o conhecimento do seu paciente.

Segundo Gelson, a chave do sucesso da hipnose nos consultórios é a boa integração entre o dentista e seu paciente. Ambos só têm a ganhar: o profissional pode trabalhar com mais tranquilidade e o paciente se livra do medo. “Além disso, o estado hipnótico é extremamente agradável para ele”, diz Gelson.

 

O fim da dor

Os processos fisiológicos que permitem ao corpo sob hipnose livrar-se da dor vêm sendo estudados e pesquisados. A teoria mais recente é a que considera os exteroceptores (os receptores da dor)1 e o sistema ativador reticular ascendente (SARA), feixes de células próximas ao cérebro.

Sempre que uma pessoa sabe que vai se submeter a algum processo doloroso, começa a liberar alguns hormônios, principalmente o cortisol, que produz estresse e acaba esgotando o cérebro. A hipnose faz com que o SARA induza a produção de hormônios serotonina (do bem-estar) e beta-endorfinas, criando um antagonismo com o cortisol.

Estudos recentes feitos a partir de tomografias computadorizadas comprovaram que a imagem do sistema ativador reticular ascendente se modifica do estado da dor para o bem estar quando o paciente está sob hipnose.

 

Lucia Seixas
Matéria originalmente publicada no site Medcenter™ Odontologia.

 


Atualizado em 2015/10/28


 

Notas


  1. EXTEROCEPTOR:sm. (êxtero + lat capto, com apofonia + or) Biol. Órgão dos sentidos excitado por estímulos que se originam fora do corpo. | Dicionário online