18 fevereiro 2011

Hipnose Relacional

FOTO: Dr. Milton Erickson, sentado, e uma inscrição na lateral direita com a frase: “Wizard of the Desert”.
“O Feiticeiro do Deserto” (em tradução livre) | Google Imagens

 

O Dr. Milton Erickson foi um dos mais impactantes terapeutas da história e sua metodologia era, declaradamente, a hipnose. Entretanto não hipnotizava como os hipnoterapeutas tradicionais. Ele tinha uma enorme influência da psiquiatria e da psicanálise. Os psicanalistas desde Freud dizem que não hipnotizam pessoas, embora elas apresentem todas as indicações clínicas de que estão; sim, os clientes estão profundamente hipnotizados e falando. Eu mesmo em minha análise pessoal sentia formigamento e necessitava de alguns minutos para voltar minha atenção para o mundo externo. Se levantasse do divã e fosse direto para a rua poderia ser atropelado… quem pagaria o prejuízo?

 

“No fundo o que Milton Erickson e Freud faziam não diferia em intenção e essência.”

 

A perícia de Erickson estava em iniciar uma conversa ou uma espécie de narrativa cada vez mais envolvente de tal modo que o paciente e, muitas vezes um grupo inteiro, entrava em estado alterado de consciência. O que é esse tal estado alterado de consciência? Que expressão misteriosa… No fundo se trata de um estado de profunda introspecção capaz de fazer com que o sujeito evoque e analise suas próprias experiências mais íntimas e significativas, sem precisar saber racionalmente nem precisar explicar verbalmente o que e como faz isso. É uma capacidade inata do ser humano. Acontece mesmo sem você saber em ciclos ao longo do dia e da noite.

Não é diferente das estórias contadas para crianças dormirem à noite. O narrador fala e a mente da pessoa vagueia até ancorar no seu interior. Então dizemos que está hipnotizado ou dormindo. Você pode sugerir muitas coisas para uma pessoa dormindo e ela terá melhores condições de analisar e tirar algum proveito delas do que acordada e ocupando-se de algo exterior.

A genialidade do Dr. Erickson era justamente usar a atenção externa para estimular a atenção interna. Por exemplo, vi num filme como um aluno em meio a um grupo altamente excitado e curioso estava com os olhos bem atentos, fixados no ambiente. Milton sugeriu que escolha um objeto especialmente interessante no ambiente e que fixasse sua atenção progressivamente nele. Não demorou mais que minutos para que a pessoa estivesse em profundo estado de introspecção. Hipnotizada. Uma pessoa pode ser hipnotizada olhando fixamente para algo ou com os olhos fechados; sentada, deitada ou caminhando. Muitos corredores entram em transe a certa altura e não percebem nada mais em volta a não ser o mínimo necessário para continuar nesse estado. Nesse momento se você perguntar algo para ele, não ouvirá. Pode ser que não veja alguém atravessando-se à sua frente ou tentando empurrá-lo. Não aconselho a ninguém entrar nesse tipo de transe nas ruas de uma grande metrópole. Reserve um lugar calmo, acolhedor, quieto e seguro para entrar em transe correndo ou nadando. O mesmo se quiser entrar em transe deitado.

Qual a diferença do modo freudiano? A pessoa mesma inicia uma narrativa na qual vai mergulhando cada vez mais até entrar em um estado profundamente alterado de consciência, capaz de escutar o que diz de uma forma inédita e surpreendente para ela mesma. O analista simplesmente facilita que isso aconteça.

Por isso quando mostro meu trabalho para analistas, eles ficam maravilhados como eu “analiso” com uma simplicidade e eficácia usando meios simples e não convencionais. Para os Hipnólogos tradicionais e praticantes da Programação NeuroLinguística (PNL) eu faço hipnose relacional de uma forma muito dinâmica e flexível…

Nossa atenção é relacional e cíclica: concentrar-se profundamente em algo externo, o foco irá cada vez mais para dentro em seguida, e se for intensamente para dentro sairá para fora depois, de outro modo, alterado. E alternado.

Para que hipnose? Para dar atenção a nós mesmos. Nossa cultura traduz isso como comprar coisas para si, divertir-se; espairar; pensar em outra coisa, simplesmente desligar do estresse quotidiano. Não se trata desse tipo de “atenção”. Não se trata de escapar da atenção externa e sim ir ao encontro da interna.

Por exemplo, se você sentir um desconforto, dê atenção à ele e verifique o que acontece. Uma atenção serena, calma e tranquila. O desafio é afastar “pré-ocupações” e “pré-juízos” a respeito do que sente e simplesmente acompanhar com interesse o que brota do seu interior. Indo ao encontro do que sente, inevitavelmente haverá a mobilização de um complexo de reações psicobiológicas transformando isso em algo cada vez melhor e melhor. Se praticar sistematicamente terá mudanças psicobiológicas cada vem mais intensas e duradouras.

E por que não?

 

Dr. Sergio Spritzer
Neurologista da Comunicação e do Comportamento
Trainer em PNL e Hipnose Ericksoniana
Diretor técnico do Instituto Neurocom

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Quero agradecer a gentileza do Dr. Sergio Spritzer em escrever um artigo tão esclarecedor para o meu blog.
Parabéns ao Dr. Sérgio e ao Instituto Neurocom!

 


Atualizado em 2016/02/06